Se você conhece percevejo apenas na rima de “procuro, mas não vejo” da música de Gilliard, é melhor prestar um pouco mais de atenção em suas andanças. O inseto, conhecido internacionalmente como bed bug, chegou a ser quase exterminado no passado, mas voltou à ativa nos anos 2000. E uma das hipóteses mais prováveis pela reviravolta desses microvilões somos justamente nós, os viajantes.

A maioria dos estudiosos liga o aumento no número de viagens ao de alastramento do inseto. Combine isso à resistência a inseticidas e voilà: temos uma infestação. Com tamanho médio de 4 a 7 milímetros, ele passa despercebido nas costuras de colchões e tapetes, e encontra um hábitat confortável nas malas de viagem. Além disso, consegue sobreviver por até seis meses sem se alimentar.

É difícil encontrar números exatos sobre a epidemia, mas a questão é séria e atinge o mundo inteiro – não pense que se trata de uma praga de países em desenvolvimento ou de hotéis baratos. Para se ter uma ideia, o Departamento de Saúde de Nova York criou uma cartilha com informações e dicas para moradores e turistas não se tornarem hospedeiros (e transportadores) do bichinho. Repare quando andar de metrô em Manhattan: há diversos anúncios de produtos e empresas que prometem exterminá-lo.

A boa notícia é que o percevejo não transmite doenças – se você não for alérgico, vai apenas coçar e deixar sua pele avermelhada A má é que o bicho é uma espécie de Chuck Norris dos insetos, resistente e duro de matar.

Há dois sites principais que listam casos de percevejos em hotéis dos Estados Unidos e Canadá: BedBugReports e BedBugRegistry. Ambos funcionam de maneira similar – o segundo tem aplicativo para iPhone e é mais completo e organizado, com busca por nome do hotel. Mas o primeiro tem uma espirituosa lista que, em vez de estrelas, usa percevejos para ranquear os estabelecimentos.

Fora dos EUA, contudo, não encontrei páginas específicas sobre percevejos em hotéis. Nesse caso, vale ficar atento às avaliações dos hóspedes em sites de reservas e em comunidades de viajantes, como o TripAdvisor.

Brasil

Por aqui, ainda há poucos casos de infestações em hotéis, mas o bed bug já entrou no radar do Instituto Biológico de São Paulo, vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado. “Há uma crescente preocupação no Brasil quanto a essa praga”, diz a pesquisadora da entidade Ana Eugênia de Carvalho Lopes. “O setor hoteleiro conhece o problema e tem lidado com ele. Outros locais, como cinemas, hospitais, hostels, pousadas e residências também têm registro de percevejos de cama.”

De acordo com o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de São Paulo (Abih-SP), Bruno Omori, o setor hoteleiro se preparou para lidar com um aumento no número de casos durante a Copa do Mundo, no ano passado. Por isso, segundo ele, foram realizados na época convênios com empresas especializadas e treinamentos nos hotéis para que a praga não se alastrasse. “Os poucos casos que ocorreram foram resolvidos rapidamente”, afirma “Talvez o problema fosse grande se não tivéssemos feito essa preventiva.”

Ainda assim o momento é de cuidado. O Instituto Biológico mantém, desde 2012, uma página (oesta.do/percevejobrasil) com informações e um questionário para ser preenchido voluntariamente sobre casos da praga no Brasil – até hoje, 340 pessoas responderam às perguntas. O que surpreende, segundo a pesquisadora Ana Eugênia, é que 50% das pessoas que tiveram problemas com o inseto nunca viajaram ao exterior. “Isso significa que a praga já pode ter se instalado no País.”

A relações internacionais Patricia Ciccone passou pelo problema em 2009, quando foi visitar a irmã na Austrália com um grupo de amigas. De lá, elas foram a Bali, na Indonésia. A viagem transcorreu normalmente mas, no terceiro dia, Patricia percebeu algumas erupções na pele. “Achei que era algum tipo de alergia alimentar”, conta.

O diagnóstico do bed bug foi feito já na Austrália, por seu cunhado. “Eu nunca tinha ouvido falar nisso”, conta Patricia. Ela já havia aberto a mala e dormido uma noite na casa da irmã – tempo suficiente para o bicho se espalhar. “Tivemos de jogar fora os colchões e dedetizar a casa.”

Depois da experiência traumática, ela se tornou uma “caçadora” de percevejos em suas viagens. Além de procurar na internet se há casos de infestação no hotel antes de efetuar a reserva, ela faz uma inspeção minuciosa no quarto ao chegar.

Como descobrir se há percevejos no quarto de hotel?

É um trabalho de Sherlock Holmes: você terá de procurar pistas (o inseto, marcas de sangue, fezes do animal) na costura do colchão, travesseiros, barrado de cortina, emenda de papel de parede. Use a lanterna do celular (você tem esse app, certo?) para ajudar: no estágio de larva, o animal é translúcido, difícil de ser visto.

Como faço para não me contaminar?

Não abra a mala no chão ou sobre a cama. Os bichos podem entrar nela e virar sua companhia de viagem pelos próximos destinos. Coloque a mala no suporte apropriado e acomode a roupa suja em sacos plásticos, bem fechados – se algum inseto estiver na roupa, ele não vai se espalhar pela bagagem inteira. Outra dica é levar aquela embalagem plástica de seu edredom e usá-la para proteger a mala.

Posso ter me contaminado. E agora?

Caso ainda esteja viajando, leve todas as suas roupas para a lavanderia mais próxima e use a secadora – os bichos só morrem a temperaturas acima de 50 graus. Depois, coloque as roupas em um saco plástico bem fechado para evitar nova contaminação. Use aspirador de pó (ou um vaporizador) para limpar a mala, por dentro e por fora, além de uma escova com uma solução de água e detergente para eliminar possíveis ovos. Se não puder, transporte a mala naquela embalagem plástica do edredom citada – você não quer contaminar sua casa, certo? Caso só descubra os percevejos depois de abrir a mala na volta ao lar, a trabalheira vai ser grande. Lave tudo com água quente e seque ao sol ou em uma secadora. Em alguns casos, contudo, a única maneira de se livrar deles será contratando uma empresa de dedetização.

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